Ministério da Saúde adota tecnologia brasileira para garantir mais cuidados a prematuros por meio de análise da pele dos pés de bebês

Análise do Departamento de Perinatologia da SOPERJ

A avaliação precisa da idade gestacional é um dos pilares fundamentais no cuidado ao
recém-nascido, especialmente no contexto da prematuridade, sendo uma informação
crítica que orienta decisões desde a sala de parto até o planejamento de toda a linha de
cuidado neonatal (1). Do ponto de vista clínico e assistencial, essa variável impacta
diretamente a estratificação de risco, a definição de condutas terapêuticas e o prognóstico
neonatal.

Nesse contexto, o dispositivo conhecido como Preemie Test – tecnologia brasileira
desenvolvida pela Universidade Federal de Minas Gerais e adotada pelo Ministério da
Saúde – representa um avanço relevante ao permitir a estimativa da idade gestacional por
meio da análise das propriedades ópticas da pele, especialmente na região plantar,
utilizando biomarcadores cutâneos não invasivos (1,2).

A base dessa tecnologia está na correlação entre a maturidade da pele e o desenvolvimento
fetal global (1,3). Dessa forma, além de estimar a idade gestacional, o método pode
auxiliar na identificação de recém-nascidos potencialmente mais imaturos, contribuindo
para a estratificação precoce de risco e para a tomada de decisão clínica inicial. A
identificação precoce desses recém-nascidos permite intervenções oportunas, como
suporte ventilatório, uso de surfactante e encaminhamento para unidades de maior
complexidade (4,5).

É importante destacar que se trata de uma ferramenta complementar, que não substitui o
ultrassom precoce, a adequada datação clínica nem a avaliação do pediatra na sala de
parto. Sua principal aplicabilidade reside em cenários com limitação de acesso a métodos
tradicionais de estimativa da idade gestacional, podendo apoiar decisões iniciais,
inclusive em contextos extra-hospitalares e no transporte neonatal seguro.
Outro aspecto relevante é sua aplicabilidade em diferentes cenários assistenciais. Por se
tratar de uma solução portátil, de baixo custo e com potencial integração a dispositivos
móveis, o Preemie Test amplia o acesso à avaliação neonatal qualificada, inclusive em
comunidades remotas ou com menor infraestrutura, contribuindo para a equidade no
cuidado (5,6).

A incorporação dessa tecnologia também se relaciona com a necessidade de
aprimoramento dos sistemas de informação em saúde. A disponibilidade e qualidade dos
dados sobre nascimentos – especialmente idade gestacional e peso ao nascer – são
fundamentais para subsidiar ações em saúde pública. Globalmente, a prematuridade
permanece como uma das principais causas de mortalidade em menores de cinco anos,
reforçando a importância de estratégias que ampliem a acurácia da avaliação neonatal e a
captura qualificada de dados (7).

No Brasil, o uso qualificado dos dados de nascimento, aliado a ferramentas como o
Preemie Test, pode fortalecer o monitoramento das taxas de prematuridade, a
identificação de grupos de risco e a melhoria dos desfechos neonatais. Essa integração
contribui para o fortalecimento dos sistemas nacionais de informação e para o suporte à
gestão em saúde (8).

Além disso, a determinação adequada da idade gestacional tem impacto direto na
organização da assistência neonatal. A regionalização e a hierarquização do cuidado
permitem o encaminhamento dos recém-nascidos conforme a complexidade necessária,
otimizando recursos e aumentando a segurança assistencial (5). Estudos no contexto da
Rede Cegonha evidenciam que ainda existem desigualdades no acesso à assistência
adequada, com ocorrência de partos prematuros em unidades não compatíveis com a
idade gestacional do recém-nascido (9).

Dessa forma, a utilização de tecnologias como o Preemie Test fortalece a organização em
rede, ao apoiar decisões clínicas e fluxos assistenciais, garantindo que recém-nascidos
mais graves sejam direcionados precocemente para unidades de maior complexidade,
enquanto casos de menor risco podem ser manejados em níveis intermediários.
Por fim, a prematuridade – definida como nascimento antes de 37 semanas – permanece
associada a elevado risco de morbidade e mortalidade, especialmente em recém-nascidos
extremamente prematuros. A padronização do cuidado, associada à inovação tecnológica
e ao uso qualificado de dados, tem potencial significativo para reduzir desfechos adversos
e melhorar a qualidade da assistência neonatal (4,6).

Assim, a análise do Preemie Test evidencia não apenas um avanço tecnológico na prática
clínica, mas também um instrumento estratégico para qualificação da assistência
neonatal, fortalecimento dos sistemas de saúde e promoção de maior equidade no cuidado
ao recém-nascido, especialmente no contexto da prematuridade e da organização
regionalizada e hierarquizada da atenção à saúde (4,6).

Referências
1. PLOS ONE. Skin reflectance to estimate gestational age: a novel
approach. 2018;e0196542. doi:10.1371/journal.pone.0196542
2. Frontiers in Pediatrics. Skin reflectance as a biomarker of neonatal
maturity. 2023;1141894. doi:10.3389/fped.2023.1141894
3. Skin Research and Technology. Optical properties of neonatal skin and
maturity correlation. 2020;srt.12810. doi:10.1111/srt.12810
4. Journal of Medical Internet Research. Mobile health technology for
neonatal assessment. 2022;e38727. doi:10.2196/38727
5. BMJ Health & Care Informatics. Digital health tools for neonatal care in
low-resource settings. 2021;e100476. doi:10.1136/bmjhci-2021-100476
6. Frontiers in Pediatrics. Gestational age assessment using noninvasive skin
measurement technologies. 2023;1264527. doi:10.3389/fped.2023.1264527
7. Reproductive Health. Global trends in preterm birth and data systems
improvement. 2025. doi:10.1186/s12978-025-02033-x
8. JMIR Biomedical Engineering. Estimation of gestational age using skin
reflectance. 2023; e52468. doi:10.2196/52468
9. Ciência & Saúde Coletiva. Adequação do local de nascimento na Rede
Cegonha segundo idade gestacional. 2021. doi:10.1590/1413-
81232021263.34662020