SOCIEDADE DE PEDIATRIA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (SOPERJ)
DEPARTAMENTO CIENTÍFICO DE NUTROLOGIA
NOTA TÉCNICA
A ILUSÃO DA INTELIGÊNCIA EM CÁPSULAS: O QUE TODO PEDIATRA PRECISA SABER
Promessas de aumento da inteligência, melhora do desenvolvimento cerebral e fortalecimento da imunidade por meio de suplementos têm se tornado cada vez mais frequentes nas redes sociais e plataformas digitais. Em muitos casos, essas recomendações são apresentadas como soluções universais, com combinações de vitaminas, minerais e outros compostos divulgadas sem avaliação médica individualizada e sem respaldo científico compatível com as alegações propostas. Nesse cenário, cresce o número de pais e responsáveis que chegam ao consultório pediátrico em busca de orientação sobre protocolos encontrados na internet e sobre a real necessidade de suplementação em crianças saudáveis.
A nutrição exerce papel fundamental no desenvolvimento do sistema nervoso central (SNC), participando de forma integrada de processos biológicos essenciais, como neurogênese, mielinização, sinaptogênese e maturação neuronal. Os primeiros anos de vida representam um período de intensa plasticidade cerebral, durante o qual a oferta adequada de nutrientes é determinante para a consolidação das habilidades cognitivas, motoras, comportamentais e socioemocionais.
Nesse contexto, o Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (SOPERJ) considera oportuno reafirmar princípios fundamentais relacionados ao papel da nutrição no neurodesenvolvimento infantil, à importância da alimentação como principal fonte de nutrientes e às reais indicações da suplementação na infância
O leite materno permanece como o padrão-ouro da alimentação infantil, fornecendo não apenas macro e micronutrientes essenciais, mas também componentes bioativos que desempenham papel importante no crescimento e no amadurecimento cerebral.
A partir dos seis meses de idade, a introdução adequada da alimentação complementar, baseada predominantemente em alimentos in natura ou minimamente processados, constitui a estratégia mais segura e eficaz para garantir o aporte dos nutrientes necessários ao crescimento e ao desenvolvimento neuropsicomotor.
Nutrientes como ferro, zinco, iodo, colina, vitamina B12 e ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa, especialmente o DHA (ácido docosa-hexaenoico), desempenham papel relevante nos processos de neurodesenvolvimento. Seu aporte deve ocorrer prioritariamente por meio de uma alimentação variada, que inclua carnes, ovos, leguminosas, peixes, frutas, verduras e outros alimentos de elevada densidade nutricional.
Os benefícios dos alimentos vão além da presença isolada de nutrientes. A interação entre diferentes componentes da matriz alimentar favorece a absorção, a biodisponibilidade e a utilização metabólica dos nutrientes, fenômeno que não pode ser integralmente reproduzido pela administração isolada de suplementos.
Até o momento, não existem evidências científicas robustas que sustentem o uso indiscriminado de vitaminas, minerais ou outros suplementos nutricionais com o objetivo de aumentar o quociente de inteligência (QI), promover “superdesenvolvimento cerebral” ou melhorar o desempenho cognitivo de crianças saudáveis sem deficiência nutricional documentada.
A administração de doses adicionais de micronutrientes em crianças adequadamente nutridas não resulta em benefícios comprovados sobre inteligência, memória, atenção ou rendimento escolar. A melhor estratégia para favorecer o aprendizado e o desenvolvimento continua sendo a oferta regular de alimentação equilibrada, associada a estímulos adequados, sono de qualidade e ambiente familiar saudável.
A indicação de suplementação deve ser sempre individualizada, fundamentada em avaliação clínica criteriosa, incluindo história alimentar, exame físico, condições de saúde associadas e, quando necessário, exames laboratoriais que confirmem deficiência nutricional específica.
Situações especiais
Prematuridade, baixo peso ao nascer, restrições alimentares importantes, doenças crônicas, condições que cursam com má absorção intestinal e cenários de insegurança alimentar podem demandar estratégias específicas de suplementação. Mesmo nesses casos, a intervenção deve ser personalizada e complementar às estratégias de promoção de uma alimentação adequada
Riscos da Suplementação Indiscriminada
A percepção equivocada de que vitaminas e minerais são substâncias isentas de riscos pode levar ao uso inadequado de suplementos, expondo crianças a efeitos adversos potencialmente graves.
Toxicidade de micronutrientes
Micronutrientes como vitaminas A e D, ferro, selênio e iodo apresentam limites seguros de ingestão estabelecidos de acordo com a faixa etária. Quando consumidos em quantidades superiores às necessidades fisiológicas, podem ocasionar toxicidade, alterações metabólicas, comprometimento hepático, alterações ósseas, distúrbios gastrointestinais e outras complicações clínicas.
Alimentos ultraprocessados e neurodesenvolvimento
Paralelamente, deve-se reforçar a orientação para redução do consumo de alimentos ultraprocessados. Além de apresentarem baixa qualidade nutricional, esses produtos frequentemente contêm excesso de açúcares, sódio, gorduras de baixa qualidade e aditivos alimentares, cujo consumo excessivo pode estar associado a desfechos desfavoráveis para a saúde física e o desenvolvimento neurocomportamental.
Recomendações Finais
O Departamento Científico de Nutrologia da SOPERJ recomenda que a consulta pediátrica de puericultura seja utilizada como espaço privilegiado para promoção da alimentação saudável, educação nutricional e orientação baseada em evidências científicas.
Cabe ao pediatra avaliar individualmente os padrões alimentares, identificar fatores de risco nutricional, reconhecer situações que demandem o uso de suplementos e desestimular a busca por soluções simplistas ou promessas de ganhos cognitivos sem respaldo científico.
A suplementação medicamentosa, quando indicada, deve ser considerada uma medida complementar e jamais substitutiva à base do crescimento e do desenvolvimento infantil: o aleitamento materno, a alimentação diversificada, adequada, segura e culturalmente contextualizada.
Por fim, é importante destacar que o neurodesenvolvimento infantil é resultado da interação complexa entre fatores biológicos, nutricionais, ambientais, emocionais e sociais. Além da oferta adequada de nutrientes, o desenvolvimento pleno da criança depende de um conjunto de condições favoráveis, incluindo alimentação adequada, sono de qualidade, estímulos apropriados, vínculos afetivos seguros, acesso à educação e proteção social. Dessa forma, não existem intervenções isoladas capazes de promover, por si só, um desenvolvimento cognitivo superior. A promoção do potencial máximo de cada criança requer uma abordagem integral, baseada em evidências científicas e centrada no cuidado global da infância.
Rio de Janeiro, 30 de maio de 2026.
Maria Carolina de Pinho Porto
Presidente do Departamento Científico de Nutrologia e Relatora
Julia Albuquerque
Membro da Comissão Científica e Relatora
