* Autor: Sandro Rachevsky Dorf, médico fisiatra, professor do departamento de pediatria da UFRJ, Doutorado e Mestrado em clínica médica pela UFRJ, chefe do Núcleo de Reabilitação e Desenvolvimento Neuropsicomotor do IPPMG – UFRJ, membro consultor do Departamento Científico de Desenvolvimento e Reabilitação da SOPERJ
– Introdução:
O andador infantil é um meio auxiliar de locomoção indicado para ajudar a marcha de indivíduos com fraqueza dos membros inferiores. No entanto, vem sendo amplamente utilizado por familiares e cuidadores com a expectativa de acelerar a aquisição da marcha em crianças, particularmente no primeiro ano de vida.
Apesar de sua popularidade, evidências científicas acumuladas nas últimas décadas demonstram que esse equipamento não promove benefícios ao desenvolvimento motor da criança e pode aumentar significativamente o risco de acidentes domésticos graves.
O desenvolvimento infantil é um processo complexo e dinâmico que resulta da interação entre fatores biológicos, ambientais e sociais. A aquisição das habilidades motoras ocorre de forma progressiva e organizada, respeitando uma sequência de marcos do desenvolvimento que refletem a maturação do sistema nervoso central e a experiência motora da criança. Nesse contexto, intervenções que modifiquem artificialmente esse processo podem interferir negativamente na aquisição das competências motoras esperadas (HASSANO; BORGNETH, 2015).
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o Ministério da Saúde e a American Academy of Pediatrics (AAP) não recomendam o uso de andadores em crianças com desenvolvimento neuropsicomotor típico, destacando a ausência de benefícios por pular etapas consideradas pré-requisitos na aquisição da marcha, como um bom controle de cabeça e de tronco, sentar e rolar. Além disso, tal equipamento usado sem a devida indicação, pode aumentar os riscos de quedas com traumatismos (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2023).
– Desenvolvimento neuropsicomotor e aquisição da marcha:
O desenvolvimento neuropsicomotor compreende a aquisição progressiva de habilidades motoras, cognitivas, sensoriais, sociais e de linguagem. Durante o primeiro ano de vida, a criança desenvolve gradativamente a sustentação da cabeça, a capacidade de sentar, rolar, engatinhar, assumir a posição ortostática e, finalmente, caminhar de forma independente.
Segundo Hassano e Borgneth (2015), a promoção do desenvolvimento normal deve ser baseada na oferta de oportunidades adequadas de exploração do ambiente, interação com cuidadores e experiências motoras espontâneas. O pediatra desempenha papel fundamental na orientação das famílias quanto às práticas que favorecem o desenvolvimento saudável, desencorajando intervenções sem respaldo científico.
– Efeitos do andador sobre o desenvolvimento motor:
Contrariamente à crença popular, o andador não acelera a aquisição da marcha. Estudos demonstram que crianças usuárias de andador podem apresentar atraso na aquisição de marcos motores como uma boa sustenção de cabeça e de torno além de falhas de coordenação e equilíbrio estático e dinâmico.
Tem sido frequente por parte da indústria de brinquedos o lançamento de brinquedos tipo andadores, porém sem ter explícito este nome na embalagem e no manual de instruções, com o propósito de auxiliar a criança na aquisição da marcha para todas as crianças. O dispositivo reduz o tempo de permanência da criança no chão e limita experiências antigravitacionais fundamentais para o desenvolvimento motor. Além disso, favorece padrões inadequados de descarga de peso, frequentemente com apoio em flexão de tronco e projeção anterior do eixo corporal, dificultando o desenvolvimento adequado das reações de equilíbrio e proteção.
Garrett, McElroy e Strobel (2002) observaram que o uso do andador pode retardar a aquisição da marcha independente, além de interferir negativamente na qualidade das experiências motoras precoces.
Borgneth e Dorf (2025) ressaltam que o desenvolvimento neuropsicomotor depende da interação contínua entre a criança e o ambiente. Qualquer fator que reduza as oportunidades de exploração ativa pode comprometer a integração dos sistemas motor, sensorial e cognitivo necessários para a construção das habilidades funcionais.
– Riscos de acidentes associados ao uso de andadores:
Há grande preocupação relacionada aos andadores infantis em relação à segurança da criança. O equipamento permite que a mesma alcance velocidades superiores às obtidas habitualmente por seus próprios meios sem o auxílio de qualquer meio auxiliar para locomoção, o que se agrava pela imaturidade cognitiva para reconhecer situações de risco.
Kamps et al. (2018) identificaram mais de 230 mil atendimentos de emergência relacionados ao uso de andadores infantis nos Estados Unidos entre 1990 e 2014. Os traumatismos cranianos representaram a principal causa de atendimento. Esses dados motivaram importantes mudanças em políticas públicas de proteção à infância.
Em 2004, o Canadá tornou-se o primeiro país do mundo a proibir a fabricação, importação e comercialização de andadores infantis para uso da população infantil geral, fundamentando sua decisão em evidências científicas relacionadas à segurança infantil.
-Posicionamento de entidades médicas:
A Sociedade Brasileira de Pediatria posiciona-se de forma enfática contra a utilização de andadores infantis. Segundo a entidade, o equipamento:
- Não acelera o desenvolvimento motor;
- Não favorece a aquisição da marcha;
- Pode retardar marcos motores importantes;
- Aumenta significativamente o risco de acidentes;
- Não apresenta benefícios comprovados para crianças com desenvolvimento típico.
A American Academy of Pediatrics mantém recomendação semelhante há mais de duas décadas, defendendo inclusive a retirada desses produtos do mercado devido ao elevado potencial de causar lesões graves.
Embora a Organização Mundial da Saúde não possua documento específico sobre andadores infantis, suas diretrizes para desenvolvimento na primeira infância enfatizam a importância do movimento livre, da brincadeira ativa e da exploração segura do ambiente como elementos fundamentais para o desenvolvimento infantil saudável.
Em crianças com desenvolvimento típico, a recomendação é privilegiar oportunidades de movimentação espontânea, exploração do ambiente e brincadeiras adequadas à faixa etária, evitando dispositivos sem benefício comprovado, como os andadores infantis (Borgneth e Dorf, 2025).
– Alternativas recomendadas:
As estratégias mais adequadas para promover o desenvolvimento neuropsicomotor incluem:
- Permanência supervisionada da criança no chão, oferendo liberdade para a criança executar o máximo de movimentos ativos;
- Brincadeiras ao ar livre apropriadas à idade;
- Ambiente seguro para exploração sensório-motora do ambiente;
- Marcha descalça em areia e outros terrenos irregulares para auxiliar na formação dos arcos plantares, quando a criança já está permanecendo em ortostatismo de forma estável;
- Interação frequente com familiares/cuidadores e outras crianças;
- Atenção ao uso excessivo de telas.
Essas medidas favorecem o fortalecimento muscular de músculos responsáveis pelas trocas posturais, a coordenação motora, o equilíbrio e a independência funcional da criança.
– Conclusão:
As evidências científicas disponíveis demonstram que o uso de andadores infantis não é recomendado para crianças com desenvolvimento neuropsicomotor típico. Além de não acelerar a aquisição da marcha, o equipamento pode interferir negativamente no desenvolvimento motor e aumentar substancialmente o risco de acidentes graves.
Referências
AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Committee on Injury and Poison Prevention. Injuries associated with infant walkers. Pediatrics, v. 108, n. 3, p. 790–792, 2001.
BORGNETH, Lívia; DORF, Sandro. Desenvolvimento neuropsicomotor: abordagem inclusiva. In: PASTURA, Giuseppe; NARDES, Flávia (org.). Pediatria do Dia a Dia. 2. ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 2025. cap. 71.3.
BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 7. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.
GARRETT, M.; McELROY, A. M.; STROBEL, M. G. The effects of infant walkers on the development of independent walking in infants. Pediatric Physical Therapy, v. 14, n. 4, p. 165–170, 2002.
HASSANO, Alice; BORGNETH, Lívia. Promoção do desenvolvimento normal no consultório pediátrico. In: HALPERN, Ricardo (org.). Manual de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento. Barueri: Manole, 2015. cap. 3.
KAMPS, C. et al. Infant walker-related injuries in the United States. Pediatrics, v. 142, n. 4, e20174332, 2018.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Andador infantil: um perigo desnecessário. Rio de Janeiro: SBP, 2018.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Por que não usar andador? Rio de Janeiro: SBP, 2023.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines on Physical Activity, Sedentary Behaviour and Sleep for Children Under 5 Years of Age. Geneva: WHO, 2019.
