Departamento Científico de Saúde Escolar da SOPERJ
Junho de 2026
A infância e a adolescência são períodos importantes no desenvolvimento das habilidades motoras e aprendizado de hábitos de vida saudáveis, estabelecendo a base para a saúde e o bem-estar ao longo da vida.
A brincadeira é o resultado das relações entre indivíduos diferentes, pressupondo uma aprendizagem social. Nesse contexto, a criança aprende a brincar e encontra, por meios próprios, uma forma de descobrir o mundo.
A brincadeira é essencial para o crescimento e desenvolvimento da criança. O brincar e o aprender estão intrinsecamente ligados. O aprendizado e a brincadeira precoce são fundamentais nas atividades sociais e estimulam o desenvolvimento da linguagem e do pensamento. Além disso, é através do lúdico que a criança se constituirá como sujeito.
Nos últimos anos, a Academia Americana de Pediatria (AAP) publicou uma série de orientações que destacam o poderoso papel da brincadeira no desenvolvimento cognitivo e social das crianças, incluindo recomendações de que os pediatras façam “prescrições para brincar” e orientem os pais a estabelecerem limites para o uso da mídia digital. Entre essas orientações, recomendam que escolham os brinquedos mais tradicionais para facilitar o desenvolvimento cognitivo do cérebro das crianças e promover as interações na construção da linguagem.
A Base Nacional Comum Curricular, do Ministério da Educação, estabelece que, de acordo com os eixos estruturantes da Educação Infantil (interações e brincadeiras), devem ser assegurados seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento, entre eles o brincar.
Ao ingressar na educação infantil (creche ou pré-escola), as crianças interagem entre si, vivenciando novas experiências em um ambiente ainda desconhecido. A partir desse momento, se inicia um processo de socialização e apropriação da cultura. Trata-se de um novo desafio, pois desperta a curiosidade por algo diferente da realidade do ambiente familiar, onde ficam, muitas vezes, isoladas num espaço restrito, convivendo apenas com adultos, algumas habitando em áreas de risco com improváveis locais seguros de recreação. O desejo comum e a liberdade de brincar diariamente com as mesmas crianças levam à formação das primeiras amizades, ao mesmo tempo prevenindo precocemente os sentimentos de discriminação e preconceito.
Promover a brincadeira na escola é oferecer um espaço para o desenvolvimento da criança como um ser autônomo, pleno e criativo. Os programas bem-sucedidos são aqueles que estimulam o aprendizado lúdico, em que as crianças estão ativamente envolvidas em descobertas significativas. Durante uma brincadeira, o cérebro infantil constrói conexões neuronais fundamentais para atenção, memória, raciocínio lógico e resolução de problemas.
Para tanto, é fundamental que as salas de aula tenham uma configuração visual e espacial que favoreça as interações, a brincadeira e a autonomia das crianças, estimulando o desenvolvimento da imaginação. Por outro lado, os professores devem estar preparados para facilitar e ampliar as relações entre as crianças e o meio ambiente e para conhecer plenamente o desenvolvimento infantil, além de entender os processos de aprendizagem das crianças.
Do mesmo modo, a brincadeira precisa ser incorporada ao currículo escolar como um todo, desde a educação infantil, assim como no ensino fundamental, permitindo ao professor ser um elemento mediador entre as crianças e o conhecimento.
O brincar tem opções saudáveis e menos saudáveis, que contribuem para o bem-estar das crianças. Assim, os pais e educadores devem escolher os tipos de brincadeiras que demonstrem incentivar o engajamento prático, promover interações sociais e estimular a imaginação. Por exemplo, crianças em idade pré-escolar (3 a 5 anos) devem ser incentivadas em atividades direcionadas, como utilização de jogos, assim como de movimentação corporal.
Existem diferentes formas de brincadeiras: brincadeira livre não direcionada (que usa criatividade ilimitada), e brincadeira semidirecionada, (aquela guiada com atenção conjunta de pais/educadores e filhos). Brincadeiras não direcionadas, gratuitas, assim como meios criativos e físicos, contribuem para o crescimento social e emocional e levam a melhor concentração na escola. Os jogos também ajudam na aproximação entre as crianças, pois permitem que aprendam como compartilhar, negociar e resolver conflitos, ensinando liderança e habilidades de grupo que podem ser úteis na vida adulta.
As brincadeiras ditas de antigamente, como pique-pega e bandeirinha, queimado, amarelinha, esconde-esconde, adoleta, dança das cadeiras, batata quente, mímica, ciranda são consideradas uma excelente maneira de praticar atividade física e interagir com outras pessoas, propiciando um intercâmbio entre gerações. Outras brincadeiras vão requerer cuidados maiores como o pião, ioiô, bola de gude, cabo de guerra, cabra-cega, corrida de saco, pular elástico. Resgatar essas brincadeiras é uma ótima forma de tornar as crianças mais ativas. Brinquedos simples e baratos, como bonecas, cordas de pular, blocos e bolas, são mais eficazes em permitir que as crianças sejam criativas e imaginativas do que brinquedos mais caros, que podem tornar a brincadeira mais passiva e menos ativa fisicamente. Todas excelentes opções para crianças e adultos longe das telas.
A brincadeira, para a criança, é um dos principais meios de expressão que possibilita a investigação e a aprendizagem sobre as pessoas e o mundo. O brincar propicia a formação de relacionamentos seguros e estáveis, seja com os familiares ou com novas amizades. Além disso, para crianças com famílias com recursos insuficientes, o brincar tem importância essencial, trazendo benefícios ao longo da vida, para atingir seu maior potencial.
O poder da brincadeira ajuda os pais, educadores e cuidadores a desenvolver habilidades importantes na vida da criança, gerenciar o tempo de uso das telas e socializá-la com outras pessoas em um nível mais próximo. Além disso, as crianças podem se expressar, incluindo suas frustrações, por meio da brincadeira, permitindo que os adultos tenham a oportunidade de entender melhor suas necessidades. Tal observação é de grande importância na Educação Infantil, mas o conceito pode ser ampliado para todas as idades.
Quando os pais e educadores observam as crianças brincando ou se juntam a elas em brincadeiras, são capazes de ver o mundo através dos seus olhos e, portanto, podem aprender a se comunicar ou oferecer orientação de maneira mais eficaz. A brincadeira oferece uma oportunidade de verem o mundo da perspectiva das próprias crianças, à medida que se envolvem totalmente com eles durante a atividade. Brincar também é ferramenta importante de inclusão. Estudos recentes enfatizam as ofertas de espaços de recreação independente de suas habilidades em locais acolhedores, seguros e esteticamente agradáveis.
Os profissionais de saúde devem ser defensores influentes da brincadeira com as crianças, incentivando, inclusive, os pais e cuidadores infantis a brincar com as crianças e a possibilitar que elas tenham tempos não rígidos para essa atividade. Devem também incentivar os educadores a reconhecer o aprendizado lúdico como um complemento importante para o aprendizado didático e precisam também considerar a possibilidade de oferecer informações para ajudar educadores, líderes comunitários, grupos religiosos e políticos a entender os benefícios do brincar para as crianças.
Referências bibliográficas:
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Environmental Qualities That Enhance Outdoor Play in Community
Playgrounds from the Perspective of Children with and without
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https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36767130/
American Academy of Pediatrics,The Power of Play: A Pediatric Role in Enhancing Development in Young Children. Volume 142, Issue 3, September 2018,
Disponível em https://publications.aap.org/pediatrics/article/142/3/e20182058/38649/The-Power-of-Play-A-Pediatric-Role-in-Enhancing. Reaffirmed January 2025. Acesso em 24 de jumho 2026.
DC Saúde Escolar
Suely Kirzner, Paulo Cesar de Almeida Mattos, Joel Bressa da Cunha e Abelardo Bastos Pinto Jr.
