Os traumatismos oculares representam causa importante de morbidade visual na infância. Muitos quadros aparentemente benignos podem cursar com lesões intraoculares graves. O papel do pediatra é fundamental na abordagem inicial, identificação de sinais de alerta e encaminhamento oportuno.
Quais são os traumatismos oculares mais frequentes na infância?
- Trauma contuso (boladas, quedas, cotoveladas)
- Abrasão de córnea
- Corpo estranho ocular
- Trauma químico (álcalis e ácidos)
- Trauma perfurante
- Mordidas/arranhaduras de animais
- Queimaduras térmicas
Trauma contuso ocular
Conduta inicial
- Compressa fria externa, sem pressão direta
- Analgesia sistêmica, se necessário
- Evitar colírios anestésicos ou corticoides
- Avaliar acuidade visual (quando possível e de forma monocular)
- Avaliar pupilas e motilidade ocular
Possíveis lesões associadas
- Hifema (sangue na câmara anterior do olho)
- Irite traumática
- Ruptura do esfíncter da íris
- Catarata traumática
- Aumento da pressão intraocular
- Edema macular traumático (commotio retinae)
- Descolamento de retina
- Ruptura de coroide
Encaminhar ao oftalmologista se:
- Dor ocular persistente
- Redução da acuidade visual
- Fotofobia
- Olho vermelho intenso
- Suspeita de hifema
- Qualquer trauma ocular moderado ou grave
- Equimose e/ou edema palpebral
Abrasão de córnea
Conduta inicial
- Irrigação com soro fisiológico
- Evitar oclusão ocular rotineira
- Avaliar necessidade de profilaxia antibiótica tópica (preferencialmente após avaliação oftalmológica)
Riscos e complicações
- Ceratite infecciosa
- Cicatriz corneana
- Dor intensa com blefaroespasmo
- Em crianças, risco de ambliopia
Encaminhar se:
- Dor intensa
- Persistência dos sintomas > 24h
- Trauma por unha, papel, vegetal ou lente de contato
- Suspeita de corpo estranho retido
Corpo estranho ocular
Conduta inicial
- Irrigação abundante com soro fisiológico
- Não tentar remover corpo estranho aderido
- Evitar uso de cotonetes ou outros instrumentos
Possíveis complicações
- Abrasão corneana
- Infecção secundária
- Corpo estranho intraocular oculto
Encaminhar se:
- Corpo estranho não removido com irrigação
- Dor persistente
- Redução da acuidade visual
- Suspeita de penetração ocular
Trauma químico ocular
Conduta IMEDIATA (tempo-dependente)
- Irrigação ocular imediata e contínua
- Água corrente ou soro fisiológico
- Manter lavagem por 15–30 minutos
- Não aguardar avaliação especializada para iniciar lavagem
Lesões possíveis
- Queimadura da conjuntiva e córnea
- Necrose limbar
- Opacificação corneana
- Glaucoma secundário
- Sinéquias e falência da superfície ocular
Encaminhar: Sempre e com urgência, após irrigação inicial.
Trauma perfurante ocular
Conduta inicial: é uma emergência oftalmológica
- Não manipular o olho
- Não remover objetos penetrantes
- Proteger com escudo rígido (sem compressão)
- Encaminhar imediatamente
Complicações
- Ruptura do globo ocular
- Endoftalmite
- Descolamento de retina
- Perda visual permanente
Mordidas e arranhaduras de animais
Conduta inicial
- Irrigação local
- Avaliar vacinação antitetânica
- Considerar risco infeccioso
- Encaminhamento precoce
Possíveis complicações
- Infecção bacteriana
- Lesões corneanas ou palpebrais
- Cicatrizes com impacto visual
Em geral, quais sinais de alerta exigem encaminhamento urgente?
- Redução da acuidade visual
- Dor ocular intensa ou progressiva
- Lacrimejamento persistente
- Fotofobia
- Hifema
- Pupila irregular
- Proptose
- Trauma químico ou perfurante
- Trauma em criança não verbal
Por que o exame oftalmológico é indispensável?
- Lesões intraoculares podem não ser visíveis externamente
- Crianças nem sempre verbalizam sintomas
- Prevenção de complicações tardias
- Redução do risco de ambliopia pós-trauma
Referências
- Wills Eye Manual, capítulos: Ocular Trauma e Pediatric Ophthalmology
- American Academy of Ophthalmology. BCSC – Section 7: Ocular Trauma
- Wright KW, Spiegel PH, Thompson L. Pediatric Ophthalmology and Strabismus
- Kuhn F et al. Ocular Trauma: Principles and Practice
