Dor Abdominal em Pediatria: Distúrbios Funcionais

Os distúrbios gastrointestinais funcionais (DGIFs) são caracterizados pela ausência de parâmetros histológicos, anatômicos ou bioquímicos passíveis de detecção pelos meios atualmente disponíveis. São diagnosticados e classificados com base na sintomatologia.

Na pediatria foram adotados em 1999, datando de 2016 a publicação mais recente, os Critérios de Roma IV. A tabela 1 demonstra as desordens funcionais associadas à dor abdominal (DGIF-DA), que aqui serão abordadas.

Epidemiologia: a prevalência de DGIF-DAs foi estimada em 13,5%, que além de alta resulta em altos custos pessoais e sociais, impactando a qualidade de vida. Ansiedade e depressão são significativamente mais frequentes entre as crianças com DGIF-DAs.

Fisiopatologia: envolve complexa interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Hipersensibilidade visceral, motilidade gastrointestinal anormal e distúrbios psicológicos contribuem para a patogênese. Recentemente, inflamação intestinal leve, aumento da permeabilidade intestinal, ativação imune e alterações no microbioma foram identificados. Com base no modelo biopsicossocial, há desregulação bidirecional complexa da interação cérebro-intestino, caracterizando a natureza multifatorial dos DGIFs. Evidências mostram atividade cerebral anormal associada à hipersensibilidade visceral, ansiedade e depressão.

Diagnóstico: baseia-se em critérios clínicos. É fundamental saber fazer um diagnóstico confiável usando os critérios de Roma e informar assertivamente ao paciente e familiares. A tabela 2 mostra os sinais de alarme para causas orgânicas e a conduta frente a eles.

Tratamento: baseado na compreensão biopsicossocial, relacionada à desregulação do eixo cérebro-intestino. Há evidências da superioridade do tratamento não farmacológico em relação ao farmacológico. Para a DF, evitar alimentos que agravem os sintomas e uso de anti-inflamatórios não esteroides. Os inibidores de bomba de próton podem ser empregados nos casos com predomínio de dor. Apesar de escassas evidências, podem ser usados antidepressivos tricíclicos em casos refratários. Para a SII reduzir ingestão de oligossacarídeos fermentáveis, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis. Na enxaqueca abdominal, considerar profilaxia com amitriptilina, propranolol e ciproheptadina. Para todas as DGIF-DA: (a) busca ensinar estratégias de enfrentamento e distração, técnicas de relaxamento, identificação e mudança de pensamentos relacionados à dor, envolvendo a criança e toda a família, visando alterar fatores ambientais que possam reforçar ou precipitar o comportamento doloroso; (b) meditação, que visa melhorar a capacidade psicológica, como a autorregulação atencional e emocional; (c) atividades físicas.

Tabela 1. Critérios diagnósticos de Roma IV para DGIF-DA.

2. Desordens funcionais relacionadas a dor abdominal

a. Dispepsia funcional (DF)

Um ou mais dos seguintes sintomas pelo menos 4 dias por mês: (1) Plenitude pós-prandial; (2) Saciedade precoce; (3) Dor epigástrica ou queimação não associada à evacuação; e (4) Após avaliação apropriada, os sintomas não podem ser totalmente explicados por outra condição médica

Dentro da DF, os seguintes subtipos são adotados: (1) Síndrome de angústia pós-prandial; e (2) Síndrome da dor epigástrica

b. Síndrome do intestino irritável (SII)

Critérios preenchidos por no mínimo 2 meses antes do diagnóstico:

Todos os seguintes: (1) Dor abdominal pelo menos 4 dias por mês (associada a um ou mais dos seguintes): (a) Relacionado à evacuação; (b) Alteração na frequência das fezes; e (c) Mudança na forma/aparência das fezes); (2) Em crianças com constipação, a dor não desaparece com a resolução do quadro; e (3) Após avaliação apropriada, os sintomas não podem ser totalmente explicados por outra condição médica.

c. Enxaqueca abdominal

Todos os seguintes ocorrendo pelo menos duas vezes: (1) Episódios paroxísticos de dor abdominal intensa, aguda, periumbilical, na linha média ou difusa com duração de 1 hora ou mais; (2) Os episódios são separados por semanas a meses; (3) A dor é incapacitante e interfere nas atividades normais; Padrão estereotipado e sintomas no paciente individual; (4) A dor está associada a 2 ou mais dos seguintes: (a) Anorexia; (b) Náusea; (c) Vômitos; (d) Dor de cabeça; (e) Fotofobia; e (f) Palidez; e (5) Após avaliação apropriada, os sintomas não podem ser totalmente explicados por outra condição médica

d. Dor abdominal funcional não especificada

Todos os seguintes pelo menos 4 vezes por mês: Dor abdominal episódica ou contínua que não ocorre apenas durante eventos fisiológicos; Critérios insuficientes para SII, dispepsia funcional ou enxaqueca abdominal; após avaliação adequada, a dor abdominal não pode ser totalmente explicado por outra condição médica

Adaptado de Hyams e colaboradores (2016).

Tabela 2. Sinais de alarme para crianças com dor abdominal crônica e avaliação inicial.

Sinais ou sintomas de alarme Avaliação
Perda de peso, desaceleração do crescimento ou atraso puberal Hemograma completo, proteína C reativa, calprotectina fecal, sorologia para triagem de doença celíaca
Vômitos em excesso, dor no flanco direito Testes de função hepática, amilase, lipase, EAS e ultrassonografia abdominal
Hematêmese ou hematoquezia

Dor na fossa ilíaca direita, diarreia crônica, doença perianal, sintomas sistêmicos como artrite ou febre a esclarecer, história familiar de doença inflamatória intestinal ou doença celíaca, perda de peso involuntária

Hemograma completo, proteína C reativa, calprotectina fecal, sorologia para triagem de doença celíaca e endoscopia
Disfagia e odinofagia

 

Endoscopia e seriografia esôfago-estômago-duodeno

Adaptado de Hyams e colaboradores (2016) e Friesen e colaboradores (2021).

Referências

  1. Benninga MA, Faure C, Hyman PE, St James Roberts I, Schechter NL, Nurko S. Childhood Functional Gastrointestinal Disorders: Neonate/Toddler. Gastroenterology. 15 de fevereiro de 2016;S0016-5085(16)00182-7.
  2. Hyams JS, Di Lorenzo C, Saps M, Shulman RJ, Staiano A, van Tilburg M. Functional Disorders: Children and Adolescents. Gastroenterology. 15 de fevereiro de 2016;S0016-5085(16)00181-5.
  3. Korterink JJ, Diederen K, Benninga MA, Tabbers MM. Epidemiology of pediatric functional abdominal pain disorders: a meta-analysis. PLoS One. 2015;10(5):e0126982.
  4. Black CJ, Drossman DA, Talley NJ, Ruddy J, Ford AC. Functional gastrointestinal disorders: advances in understanding and management. Lancet. 21 de novembro de 2020;396(10263):1664–74.
  5. Friesen C, Colombo JM, Deacy A, Schurman JV. An Update on the Assessment and Management of Pediatric Abdominal Pain. Pediatric Health Med Ther. 2021;12:373–93.
  6. Cordeiro Santos ML, da Silva Júnior RT, de Brito BB, França da Silva FA, Santos Marques H, Lima de Souza Gonçalves V, et al. Non-pharmacological management of pediatric functional abdominal pain disorders: Current evidence and future perspectives. World J Clin Pediatr. 9 de março de 2022;11(2):105–19.